Trajetórias que inspiram e abrem caminhos: Economista-chefe do Banco Inter compartilha experiências pessoais e profissionais, destaca desafios da presença feminina na economia e reflete sobre saúde mental no setor financeiro
O auditório do Corecon-MG recebeu, no dia 5 de março, a economista-chefe do Banco Inter, Rafaela Vitória, para uma palestra que integrou a iniciativa “Mulheres que Pensam a Economia”. A atividade teve início com a recepção à palestrante conduzida pelas economistas Alzira Alice e Amanda Dias, integrantes do Conselho-MG Mulheres, que destacaram a importância de promover espaços de escuta, troca e valorização das trajetórias femininas na economia.
A ação reúne reflexões sobre como a maior participação feminina contribui para a incorporação de novas perspectivas na formulação de políticas e estratégias econômicas — ampliando o olhar sobre temas como redução das desigualdades, inclusão no mercado de trabalho e desenvolvimento orientado ao bem-estar social.
Abrindo sua fala, Rafaela compartilhou memórias pessoais e familiares, destacando o papel de mulheres que, mesmo com acesso limitado à educação formal, valorizavam o trabalho, o estudo e a autonomia. Ao recordar o incentivo recebido de sua mãe, deixou uma mensagem que dialoga diretamente com o público feminino:
“Você tem que estudar, você tem que ter a sua profissão antes de casar.”
A fala evidencia como o incentivo à autonomia e à formação profissional pode atravessar gerações e impactar escolhas de vida.
Entre a academia e o mercado: uma economia aplicada
A escolha pela economia surgiu ainda na juventude, unindo o interesse pelas ciências exatas à possibilidade de compreender aspectos humanos e sociais. Ingressando na universidade aos 17 anos, Rafaela construiu uma carreira marcada pela aproximação entre teoria e prática.
“A economia me permitia olhar para números, mas também para pessoas.”
Com experiência consolidada no mercado financeiro, sua atuação sempre esteve voltada à aplicação da análise econômica na tomada de decisões, especialmente no campo dos investimentos. Ao longo de sua trajetória, buscou traduzir conceitos econômicos em ferramentas práticas, aproximando a economia do cotidiano das pessoas e das instituições.
Sua formação acadêmica — que inclui mestrado em finanças e doutorado em administração, iniciado após os 40 anos — reforça a importância da educação contínua e inspira mulheres em diferentes fases da vida:
“Voltei a estudar depois dos 40 anos. Foi uma experiência incrível — nunca é tarde para recomeçar.”
A economista destacou, ainda, o papel crescente das habilidades em programação e análise de dados, apontando que essas competências são cada vez mais essenciais para quem deseja atuar na área.
Desigualdades de gênero e desafios persistentes
Durante a palestra, Rafaela Vitória chamou atenção para a ainda limitada presença feminina em áreas como finanças e econometria. Ao compartilhar sua experiência no doutorado, relatou que, entre os estudantes da área de finanças, apenas duas eram mulheres, além da ausência feminina em disciplinas como econometria.
Apesar desse cenário, destacou a importância de referências femininas e da construção de confiança ao longo da trajetória:
“Eu nunca me senti deslocada, porque sempre tive exemplos de que era possível estar ali.”
Ao abordar a conciliação entre carreira e vida pessoal, trouxe uma reflexão importante sobre desigualdades ainda presentes:
“Quando os filhos são pequenos, as diferenças entre homens e mulheres no trabalho ainda ficam muito evidentes.”
Saúde mental e ambiente de trabalho em debate
O momento de interação com o público trouxe à discussão temas como pressão e saúde mental no setor financeiro. Ao responder a um participante, Rafaela Vitória apresentou uma visão equilibrada sobre o ambiente bancário, destacando que, embora seja um setor exigente, conta com estruturas organizacionais consolidadas.
“É um setor que lida com pressão há muito tempo, mas que também desenvolveu organização e regras claras, o que ajuda a equilibrar o ambiente.”
Segundo a economista, a experiência da ansiedade pode variar de pessoa para pessoa, e muitos casos estão relacionados a questões que vão além do ambiente profissional. Nesse contexto, reforçou o papel do cuidado e da gestão:
“O suporte dos gestores faz toda a diferença — é possível acolher e apoiar quando alguém precisa.”
Uma economia com mais perspectivas
A palestra de Rafaela Vitória reforça o propósito da iniciativa “Mulheres que Pensam a Economia”, ao evidenciar que ampliar a participação feminina não é apenas uma questão de representatividade, mas também de qualificação do debate econômico.
“Ter diferentes experiências e olhares torna a economia mais completa e mais conectada com a realidade.”
Ao incorporar diferentes vivências e perspectivas, a economia se torna mais capaz de enfrentar desafios complexos e de construir soluções mais abrangentes, alinhadas à promoção da inclusão, à redução das desigualdades e ao fortalecimento de um desenvolvimento orientado ao bem-estar social.








