Cerimônia marcou a entrega do 3º Prêmio Economia Mineira e reuniu representantes de instituições, universidades, entidades profissionais e diferentes áreas de atuação da Economia
Uma história de 75 anos não começa em uma assinatura. Ela começa muito antes.
Foi a partir dessa perspectiva que o Conselho Regional de Economia de Minas Gerais (Corecon-MG) celebrou, em 13 de agosto, os 75 anos da regulamentação da profissão de economista no Brasil, em uma cerimônia que também marcou a entrega do 3º Prêmio Economia Mineira.
O evento reuniu economistas, representantes de universidades, instituições públicas e privadas, entidades profissionais e veículos de comunicação para celebrar a trajetória da profissão e reconhecer pessoas e instituições que contribuem para a produção do conhecimento econômico, a formação profissional, o desempenho técnico e a comunicação especializada.
O marco histórico remete a 13 de agosto de 1951, quando foi sancionada a Lei nº 1.411, que regulamentou a profissão de economista no Brasil. Mas, como destacou a presidente do Corecon-MG, Carolina Rocha Batista, a regulamentação não representou o início da trajetória, mas a consolidação de um processo que já estava em construção.
“Mas uma história de 75 anos não começa em uma assinatura. Ela começa muito antes.”
A construção da profissão acompanhou as transformações do próprio país. A formação acadêmica, a produção de conhecimento, a organização profissional e a mobilização da categoria foram construindo as bases para que a Economia se consolidasse como campo de conhecimento e atuação profissional.
Uma profissão construída também pela organização da categoria
A trajetória dos economistas também foi marcada pela organização das entidades profissionais. O presidente do Sindicato dos Economistas de Minas Gerais (Sindecon-MG), Breno Leandro, resgatou parte dessa história ao lembrar a articulação, ainda na década de 1960, entre entidades como o Sindicato dos Economistas, o Centro de Economia e a Associação dos Economistas de Minas Gerais.
A construção da chamada “Casa do Economista” representava mais do que a criação de um espaço físico. Expressava a tentativa de aproximar entidades e reunir esforços em torno da valorização profissional, da organização da categoria e do debate sobre os rumos da Economia.
Breno também destacou a participação da entidade em discussões relacionadas à formação acadêmica, ao código de ética e à legislação profissional, além da presença de economistas em momentos relevantes da história brasileira.
A memória da profissão, portanto, não se restringe aos marcos específicos da legislação que regulamentou o exercício da Economia. Ela também está presente na participação de economistas e de suas entidades nos debates sobre os rumos do país.
A Economia nas cidades e na vida da população
A dimensão pública e social da atuação do economista foi destacada por Carlos Frederico Pinto e Neto, secretário da Fazenda do município de Contagem, que representou o prefeito Ricardo Faria na cerimônia.
Também graduado em Ciências Econômicas, o secretário ressaltou a importância da profissão no âmbito municipal, onde as decisões econômicas estão diretamente relacionadas às políticas públicas que chegam ao cotidiano da população.
“No âmbito dos municípios, a profissão de economista tem uma importância muito grande. As pessoas vivem nas cidades, as pessoas precisam das políticas públicas do município.”
Carlos Frederico defendeu ainda uma atuação profissional que considere as pessoas para além dos indicadores e das categorias utilizadas nas análises econômicas. Para ele, os profissionais das Ciências Econômicas e das áreas sociais devem buscar soluções específicas para melhorar a vida dos cidadãos.
A manifestação acrescenta uma dimensão importante à celebração dos 75 anos: o conhecimento econômico também se expressa nas decisões tomadas nos municípios, na elaboração das políticas públicas e na busca por respostas para problemas concretos da população.
Universidade, formação e produção de conhecimento
A celebração dos 75 anos ganhou um significado particular com a participação da Universidade Federal de Viçosa (UFV), que também vive um ano de marcos históricos: são 100 anos da Universidade, 50 anos do curso de Economia e 20 anos do programa de pós-graduação em Economia.
Ao longo de cinco décadas, o curso de Economia da UFV já formou mais de 1.500 economistas, profissionais que passaram a atuar no Brasil e no exterior.
Para o reitor da UFV, Demétrius David, a coincidência das datas reforça a relação entre a trajetória da profissão e o papel das universidades na formação dos economistas e na produção do conhecimento.
O reitor também apontou a necessidade de aproximar as universidades dos Conselhos de Economia. Segundo Demétrius, ainda existe entre parte dos estudantes uma compreensão limitada sobre o papel dos Conselhos, muitas vezes associados apenas à arrecadação. Para ele, é necessário apresentar às novas gerações a missão dessas instituições e ampliar o diálogo durante a formação acadêmica.
O convite para que o Corecon-MG esteja mais presente na universidade aponta para uma questão central para os próximos anos: a valorização da profissão também passa pela formação de novas gerações capazes de compreender seu papel profissional e institucional.
3º Prêmio Economia Mineira reconhece diferentes formas de contribuição
Essa perspectiva esteve presente no 3º Prêmio Economia Mineira, que reuniu diferentes dimensões da atuação econômica.
Na categoria Personalidade Econômica do Ano, o reconhecimento foi concedido a Débora Freire.
O Destaque Econômico do Ano – Academia teve como vencedora a Universidade Federal de Uberlândia (UFU), com menções honrosas para Ibmec e Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP).
No Destaque Econômico do Ano – Desempenho Técnico, a Junta Comercial do Estado de Minas Gerais (Jucemg) recebeu o prêmio. Faemg e Sistema Ocemg receberam menções honrosas.
Já o Destaque Econômico do Ano – Mídia reconheceu a Rádio Inconfidência, com menções honrosas para BandNews Minas e TV Horizonte.
A presença da mídia entre as categorias do prêmio reforça o papel da comunicação na democratização da informação econômica e na aproximação entre temas que muitas vezes permanecem restritos ao ambiente técnico e acadêmico e a sociedade.
O prêmio também reconheceu a atuação das mulheres na profissão. Olga Hianni Portugal Vieira foi escolhida Mulher Economista do Ano de 2026, enquanto Rafaela Vitória e Maria de Fátima Guerra receberam menções honrosas.
Olga atua como Coordenadora-Geral de Estudos Fiscais e Socioeconômicos da Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda, função relacionada à produção de estudos e análises na área fiscal e socioeconômica.
O conjunto de categorias demonstra a intenção do prêmio de reconhecer diferentes formas de contribuição para a Economia: da pesquisa e da formação acadêmica à atuação técnica, da produção de informação econômica à trajetória profissional.
Instituições que fazem parte da história da Economia
A celebração dos 75 anos também foi marcada por homenagens a instituições que contribuíram para a formação de economistas, a produção de conhecimento e o desenvolvimento da Economia em Minas Gerais e no Brasil.
A Faculdade de Economia de Juiz de Fora foi homenageada pelos seus 85 anos de história. São oito décadas e meia dedicadas ao ensino, à pesquisa, à formação de economistas e à produção de conhecimento a serviço do desenvolvimento de Minas Gerais e do Brasil.
Sua trajetória teve início em 2 de abril de 1941, na Academia de Comércio, com a criação do curso superior de Administração e Finanças. Em 1943, o curso passou a denominar-se Ciências Econômicas, dando início a uma trajetória que atravessaria gerações.
Também recebeu homenagem a Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Minas Gerais (FACE/UFMG), instituição cuja trajetória está profundamente ligada à formação de economistas em Minas Gerais e no Brasil.
Fundada em 20 de dezembro de 1941, como entidade privada sob o nome de Faculdade de Ciências Econômicas e Administrativas de Minas Gerais, a instituição iniciou sua trajetória oferecendo, entre 1941 e 1945, o curso superior de Administração e Finanças, voltado à formação de profissionais para diferentes áreas, entre elas Economia, finanças, serviço público e administração de empresas.
Ao longo de sua história, a FACE/UFMG formou gerações de economistas que contribuíram e continuam contribuindo para Minas Gerais e para o Brasil, ocupando espaços na academia, no setor público e privado, em instituições de pesquisa e em diferentes áreas de formulação e tomada de decisões.
A Universidade Federal de Viçosa recebeu ainda duas homenagens relacionadas à sua trajetória acadêmica. O curso de graduação em Ciências Econômicas foi reconhecido pelos seus 50 anos de existência. Criado em 1976 e oficialmente reconhecido pelo Conselho Federal de Educação por meio da Portaria nº 91, de 21 de janeiro de 1980, o curso consolidou uma trajetória na formação de economistas para diferentes áreas de atuação.
A universidade também foi homenageada pelos 20 anos do Programa de Pós-Graduação em Economia, em reconhecimento à sua contribuição para a produção científica, a formação de pesquisadores e a qualificação de profissionais na área.
As homenagens à UFV integram um conjunto de marcos que tornam 2026 especialmente significativo para a instituição: além dos 100 anos da Universidade, são 50 anos do curso de Economia e 20 anos da pós-graduação.
Também foram homenageados o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), pelos 90 anos, o professor João Antônio de Paula, da UFMG, e outras instituições e trajetórias que fazem parte da construção da Economia em Minas Gerais e no Brasil.
João Antônio de Paula: uma vida dedicada à formação de economistas
Entre as homenagens especiais da cerimônia esteve a concedida ao professor João Antônio de Paula, em reconhecimento à sua trajetória e à contribuição para a construção e o fortalecimento da profissão de economista em Minas Gerais e no Brasil.
Ao longo de sua carreira, o professor contribuiu para o pensamento econômico, para a academia e, sobretudo, para a formação de diferentes gerações de economistas por meio do ensino, da pesquisa e da produção intelectual.
Em seu discurso de agradecimento, João Antônio de Paula ressaltou a dimensão pessoal da homenagem e lembrou uma trajetória de 50 anos de docência. Ao tentar dimensionar o número de estudantes com os quais teve contato ao longo desse período, afirmou ter interrompido a contagem quando chegou a 20 mil.
Mais do que quantificar uma trajetória, a lembrança serviu para destacar a dimensão humana da experiência docente. O professor ressaltou que a relação com os estudantes também foi fundamental para sua própria formação intelectual.
“Você não consegue ser um professor por tanto tempo sem aprender todo dia.”
Segundo João Antônio de Paula, mesmo uma aula cuidadosamente preparada pode ser transformada pelo encontro com os estudantes, que trazem questões capazes de provocar novas reflexões.
“Cada vez que você entra numa sala de aula, mesmo preparado bem aquilo que você quer falar, há sempre uma surpresa, uma coisa inesperada que te obriga a repensar, obriga inclusive a mudar de opinião.”
A fala do professor trouxe à cerimônia uma dimensão que ultrapassa a homenagem individual. Ela evidencia o caráter permanente da formação: professores formam estudantes, mas também são transformados pela experiência de ensinar, em um processo contínuo de construção e revisão do conhecimento.
Os próximos 75 anos passam pelos dados e pela inteligência artificial
Se a cerimônia olhou para a história da profissão, a participação do presidente do IBGE, Márcio Pochmann, trouxe o debate para um dos grandes desafios contemporâneos: a transformação provocada pelos dados e pela inteligência artificial.
A discussão partiu da experiência do IBGE na produção e divulgação de informações estatísticas e chegou aos desafios colocados pela crescente capacidade de cruzamento e processamento de dados.
Um dos pontos destacados foi o risco de reidentificação de pessoas a partir da combinação de diferentes bases de dados, mesmo quando informações isoladas não permitem sua identificação.
Para Pochmann, esse cenário exige novas respostas das instituições responsáveis pela produção estatística e coloca em debate a relação entre acesso à informação, pesquisa, formulação de políticas públicas e proteção dos dados.
Mas a questão vai além das estatísticas oficiais.
As grandes plataformas digitais acumulam diariamente informações sobre hábitos, deslocamentos, preferências e comportamentos. Esse processo produz uma concentração de dados que, segundo Pochmann, precisa ser analisada também sob a perspectiva do desenvolvimento e da autonomia nacional.
“O Brasil hoje não tem soberania dos seus dados.”
O debate coloca novas questões para os economistas: quem produz os dados, quem os armazena, quem pode processá-los e quem controla as tecnologias capazes de transformar esses dados em informação e conhecimento?
São perguntas que passam a integrar uma agenda econômica na qual tecnologia, informação e soberania nacional estão cada vez mais relacionadas.
75 anos olhando para os próximos 75
As diferentes falas e homenagens realizadas durante o 3º Prêmio Economia Mineira construíram uma trajetória que vai além da celebração de uma data.
A história lembrada por Carolina Rocha Batista remete às raízes da profissão e à mobilização que antecedeu a regulamentação de 1951. Breno Leandro recuperou a construção da representação profissional em Minas Gerais. Carlos Frederico Pinto e Neto destacou a presença da Economia nas políticas públicas municipais e sua relação direta com a vida dos cidadãos. Demétrius David colocou a universidade no centro desse processo, destacando a formação e a produção de conhecimento. João Antônio de Paula trouxe a experiência de quem dedicou cinco décadas à formação de economistas. Márcio Pochmann apontou para desafios que já fazem parte do presente, como inteligência artificial, dados e soberania digital.
São diferentes dimensões de uma mesma história.
A profissão que se consolidou juridicamente em 1951 encontra, 75 anos depois, um país diante de transformações econômicas, tecnológicas e institucionais que exigem novos conhecimentos e novas formas de atuação.
Por isso, celebrar os 75 anos também significa perguntar qual será o papel do economista nos próximos 75 anos.
O 3º Prêmio Economia Mineira mostrou que essa construção continuará sendo coletiva: pelas universidades, pelas instituições de pesquisa, pelos órgãos públicos e privados, pelas entidades profissionais, pela mídia, pelas mulheres economistas e, sobretudo, pelas novas gerações que estão chegando à profissão.
Celebrar o passado, reconhecer o presente e construir o futuro da Economia.

