Ao longo de sua carreira, o professor contribuiu para o pensamento econômico, para a academia e, sobretudo, para a formação de diferentes gerações de economistas por meio do ensino, da pesquisa e da produção intelectual.
Entre as homenagens realizadas pelo Conselho Regional de Economia de Minas Gerais (Corecon-MG) durante a celebração dos 75 anos da regulamentação da profissão de economista, esteve a concedida ao professor João Antônio de Paula, da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Minas Gerais (FACE/UFMG).
A homenagem reconheceu uma trajetória de 50 anos de docência, dedicada ao ensino, à pesquisa e à formação de gerações de economistas. Ao longo desse percurso, João Antônio de Paula construiu uma reflexão sobre a Economia que ultrapassa os limites da própria disciplina, incorporando história, filosofia, sociologia, geografia e outras áreas do conhecimento.
Em seu discurso, o professor recuperou o caminho que o levou à Economia, iniciado ainda na adolescência, em meio à experiência do golpe de Estado de 1964. A partir dessa vivência, contou como o interesse por questões sociais e políticas o aproximou da filosofia, da história e da Economia, até a escolha pela formação de economista.
A fala também apresenta uma reflexão sobre o significado de ser economista. Recuperando uma formulação de John Stuart Mill, João Antônio de Paula defende que “ninguém pode ser um bom economista sendo só economista”. Para ele, a complexidade dos fenômenos econômicos exige uma formação interdisciplinar e uma compreensão que considere as dimensões histórica, social, política, espacial e cultural da realidade.
Ao longo de sua intervenção, o professor também relacionou a Economia aos grandes desafios contemporâneos: a precarização e a superexploração do trabalho, as guerras e os deslocamentos populacionais, a destruição ambiental, o avanço de movimentos autoritários, o enfraquecimento da democracia e a transformação da cultura em mercadoria.
Sua reflexão converge para uma concepção da Economia como campo de conhecimento diretamente relacionado às condições materiais da existência humana. Por isso, afirma que o economista tem um compromisso com questões como liberdade, igualdade, equidade, sustentabilidade e diversidade.
A seguir, a íntegra da fala do professor João Antônio de Paula.
Eu gostaria de começar agradecendo o convite do Corecon, na pessoa da presidente Carolina, por essa homenagem imerecida, mas que me toca, me honra e me comove. Trata-se, na verdade, de um reconhecimento de uma opção de economista.
Todos temos a mesma idade, mas eu nunca pensei, quando era adolescente, em me tornar economista. O fato de chegar à Economia resulta de uma série de peripécias que eu não vou ter tempo de explorar aqui, pelo menos de forma minuciosa, mas vou falar um pouco sobre isso também.
Quero agradecer a homenagem e agradecer os amigos que tenho. Vejo muitos aqui nessa sala: antigos alunos, companheiros, colegas, gente que me ajudou muito.
Você não consegue chegar, no meu caso, tendo ficado 50 anos — 50 anos menos um mês, rigorosamente 50 anos menos um mês —, sem acumular uma experiência muito grande.
Tentei fazer um cálculo de quantos alunos eu tive nesse período, não só na universidade, mas em outras atividades docentes. Quando cheguei aos 20 mil, eu parei, porque não conseguia mais contar.
Então, é um número enorme de pessoas. É uma legião, ou legiões de pessoas, que, com a infelicidade delas, tiveram que me enfrentar, me aturar, me tolerar e, com quem, eu aprendi muito.
Você não consegue ser um professor por tanto tempo sem aprender todo dia. Cada vez que você entra numa sala de aula, mesmo tendo preparado bem aquilo que você quer falar, há sempre uma surpresa, uma coisa inesperada que te obriga a repensar, te obriga a mudar de opinião sobre coisas que vão enriquecendo nossa experiência humana e intelectual.
A escolha da Economia, no meu caso, decorre de uma preocupação, digamos, cidadã.
Quando eu vi o golpe de Estado em 1964, eu tinha 13 anos de idade. Mas, por circunstâncias familiares, eu tomei o golpe como um golpe contra mim, contra minha família. Eu tinha uma mãe que era uma juscelinista fervorosa, uma avó que era uma getulista, e o golpe pareceu a mim e à minha família uma coisa que atingia a nossa casa.
Então, eu me coloquei contra o golpe desde o início.
Isso marca muito uma trajetória de vida: você olhar para o mundo, olhar para a vida política brasileira e perceber que é alguma coisa profundamente errada, injusta, obscurantista acontecendo, e você está vivendo aquilo, crescendo sobre aquele manto pesado.
Essa experiência do golpe me levou a pensar questões relativas à sociedade, problemas sociais. E eu tinha três questões que me interessavam nesse momento, nessa adolescência: filosofia, história e Economia.
As três, para mim, eram meio indiferentes. Eu meio que misturava as três. Eu era, e sou, um leitor muito onívoro; lia muita coisa de várias áreas e, sobretudo, me colocava muito na perspectiva de transformar aquilo que eu lia em algum sentido prático, algum sentido coletivo.
Então, quando escolhi a Economia, foi uma escolha. Poderia ter sido filosofia, poderia ter sido história, mas eu não me arrependi.
O que eu fiz depois, na minha vida profissional, decorre dessa escolha, bem fortuita, pela Economia.
Eu entrei na universidade em 1970 e me tornei economista profissional em 1976. Portanto, há 50 anos, eu tinha uma carteirinha que tem o número 1172. Portanto, eu sou o associado 1.172 dos economistas de Minas Gerais.
Mas, na verdade, nunca exerci a profissão como economista, mas sim como professor de Economia e, sobretudo, de Economia Política, de História Econômica e de várias outras coisas correlacionadas com a Economia.
Ao longo da minha vida profissional, fui tentando entender exatamente o que eu estava fazendo, o que significava ser economista. E alguns autores me ajudaram muito a definir isso com mais clareza.
Um deles é John Stuart Mill, que foi um grande economista do século XIX, filósofo importante, liberal, mas com uma certa estrutura bem socializante. Um pensador interessante, positivista, ligado a Comte.
E ele disse uma coisa sobre a Economia que me parece fundamental: ninguém pode ser um bom economista sendo só economista.
Isso, para mim, é uma regra de ouro.
A atividade do economista, o pensar econômico, necessariamente mobiliza outros campos, outras disciplinas. Ele é interdisciplinar por definição.
A formação do economista é muito exigente. Eu sempre falo isso: escolher a Economia é escolher um campo muito complicado do ponto de vista teórico.
O que envolve o conhecimento de métodos quantitativos, matemática, estatística, história, história econômica, social, política, mas também de geografia, de direito, de psicologia, sociologia, administração.
Todas essas disciplinas são essenciais na formação do economista. Não são simplesmente coisas laterais, apêndices. Não.
O modo de pensar a Economia sem considerar essas disciplinas será empobrecedor, reducionista, estreito.
Tudo isso me faz — eu sempre falo isso como elogio aos economistas — lembrar uma coisa que é meio engraçada e que é um grande elogio ao economista: o caso de Max Planck, o físico que desenvolveu a teoria quântica.
Max Planck fala que queria ser economista. Começou a estudar Economia, mas aquilo era muito difícil. Então, largou a Economia para fazer física quântica.
Isso é sério. Não estou fazendo piada, é sério e é verdade.
A complexidade da Economia é um negócio para ser levado a sério.
Márcio falou a respeito da geografia e da estatística. Não é possível ser um bom economista desprezando a geografia, a dimensão espacial dos fenômenos, como também não é possível desprezar a dimensão temporal dos fenômenos: a história.
Tem um historiador fundamental, chamado Marc Bloch, que falava que a história é o estudo dos homens no tempo.
Todos os fenômenos humanos — o que é feito, e também o que não é feito, o que é sonhado, o que é planejado, o que é pensado, o que é conquistado, o fracasso — tudo isso faz parte da história.
E a Economia tem um lugar central nessa compreensão.
É preciso levar a sério a Economia porque ela é realmente uma disciplina central da vida contemporânea.
A produção material.
Nós podemos pensar várias coisas sobre o mundo, podemos imaginar o que quisermos sobre o mundo, mas o cotidiano vai nos cobrar a produção e a reprodução material.
Marx chamava isso de concepção materialista da história.
Esse elogio à Economia não é feito abstratamente. Isso é ontológico.
Se nós não trabalharmos, nós morremos. Se nós não produzimos a nossa próxima existência, desaparecemos nós, a humanidade e a civilização.
A Economia trata disso.
A Economia, nesse sentido, é uma disciplina antifrívola. Ela é a antifrivolidade, porque está o tempo todo desafiada, interpelada para pensar problemas fundamentais da vida social.
E nós estamos vivendo um momento particularmente crítico.
Ninguém dúvida disso, no Brasil, em particular, estamos prestes a entrar num processo eleitoral cujas ameaças de uma regressão fascista são fortes. Nós temos que estar atentos a isso.
Mas, no mundo inteiro, nós temos vários e vários processos absolutamente deletérios.
Nesse processo atual de superexploração do trabalho e precarização do trabalho, essas duas coisas estão juntas. O trabalho está superexplorado e precarizado.
Esse processo de pejotização e de uberização destrói completamente a vida das pessoas, mas destrói também os vínculos sociais, destrói a possibilidade da existência de uma organização coletiva do trabalho, com os sindicatos.
Esse é um fenômeno que atinge e repercute diretamente sobre a nossa profissão.
Segundo, também tem uma dimensão contemporânea decisiva que eu chamaria de exacerbação imperialista.
Imperialismo é um fenômeno antigo, moderno, do século XIX para cá, e ele tem um ciclo, tem ondas.
Nós estamos vivendo um momento especialmente dramático de exacerbação das formas mais regressivas de imperialismo, sob a forma de guerras, de violência, de racismo, de xenofobia, de nomadismo, de milhões e milhões de pessoas que vagam pelo mundo diariamente sem ter onde morrer.
Agora assistimos, na semana passada, à tentativa de invadir a Celta e todas as semanas, se vocês olharem nos jornais, eles publicam isso com uma notinha: um grupo de pessoas tentando sair da África, por exemplo, para ir para a Europa, e o barco, a embarcação precária onde estão navegando, aderna; morrem não sei quantos, morrem centenas de pessoas.
Por quê?
Porque não têm como viver onde estavam, porque tem guerra, porque tem seca, porque tem fenômenos climáticos cada vez mais dramáticos.
Esse é o terceiro ponto que eu queria chamar a atenção: a destruição ambiental provocada pela forma como o capitalismo funciona.
O fenômeno natural é o resultado de um fenômeno completamente não natural, que é o capitalismo.
Destruição ambiental, aquecimento global: outro fenômeno fundamental do nosso tempo, o ódio à democracia, a expansão dos regimes fascistas, nazistas, de extrema direita no mundo inteiro, aqui no nosso continente, inclusive.
O ódio à democracia.
E um outro fenômeno também, para mim, extremamente importante, que é a mercantilização da cultura, a transformação da cultura em mercadoria.
Tudo virou mercadoria. Tudo.
Eu listei essas coisas que são fundamentais, e todas elas, todas essas questões, o economista, a atividade econômica, o pensar econômico, o agir econômico têm um lugar importante.
Então, escolher Economia, estudar Economia, é estar se colocando problemas extremamente complexos.
Marx, num momento de otimismo, dizia que os homens não se colocam problemas que não podem resolver.
Eu acho que ele não tem muita razão nisso, mas, enfim, vamos acreditar que seja isso. Vamos perseverar nisso.
Para dizer que o maior elogio que nós podemos fazer à Economia — e eu estou fazendo um elogio vindo de fora, não me sinto muito economista nesse sentido — é que os economistas têm o dever de ofício de estar o tempo todo comprometidos com a transformação social do ponto de vista da liberdade, da igualdade, da equidade, da sustentabilidade e da diversidade.
Esses são os temas que, de um jeito ou de outro, se colocam na perspectiva dos economistas que devem ser chamados como tais.
Então, eu agradeço muito ao Corecon, à nossa Carolina, pela lembrança do meu nome, e dizer que, para mim, tem sido um privilégio compartilhar com essas gerações e gerações de alunos, amigos e colegas um pouco da minha experiência e da minha visão sobre esses temas.
Muito obrigado.

