Entre os dias 29 e 31 de maio, o 6º Seminário de Estudantes de Economia reuniu pesquisadores, gestores públicos, representantes do Sistema Cofecon/Corecons e profissionais de diferentes áreas para discutir alguns dos temas mais relevantes da agenda econômica contemporânea. Ao longo de três dias, os participantes debateram desigualdades de gênero e raça, os desafios da profissão de economista, os impactos dos conflitos internacionais sobre a economia brasileira, sustentabilidade urbana, política e democracia, transformações no mundo do trabalho, digitalização das profissões, além da ascensão da China e seus efeitos sobre a dinâmica do capitalismo global.

As mesas evidenciaram a amplitude do campo da Economia e sua conexão com questões sociais, políticas, ambientais e tecnológicas. Os debates também destacaram a importância do planejamento, da inovação, das políticas públicas e da formação crítica dos futuros economistas diante de um cenário marcado por mudanças aceleradas, disputas geopolíticas e novos desafios para o desenvolvimento nacional.

O seminário consolidou-se como um espaço de reflexão, intercâmbio de conhecimentos e aproximação entre estudantes, pesquisadores e profissionais, contribuindo para ampliar o entendimento sobre os rumos da economia brasileira e mundial no século XXI.

Leia como ocorreram as mesas abaixo:


Dos conflitos globais às cidades sustentáveis: desafios da economia em um mundo em transformação

Especialistas analisaram como conflitos geopolíticos internacionais influenciam o comércio exterior, a inflação, os preços da energia e as perspectivas de crescimento da economia brasileira em um cenário global marcado por incertezas e disputas estratégicas.

A programação do segundo dia do 6º Seminário de Estudantes de Economia teve início, em 30 de maio, com a mesa “Conflitos Globais e seus Impactos na Economia Brasileira”, reunindo o professor João Prates Romero, do Cedeplar/UFMG, e a secretária de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Débora Freire Cardoso. O debate analisou os efeitos das tensões geopolíticas internacionais sobre a economia brasileira, com destaque para os conflitos entre Rússia e Ucrânia e entre Estados Unidos, Israel e Irã.

Abrindo a mesa, João Prates Romero apresentou uma análise dos impactos dos conflitos recentes sobre o comércio internacional e as cadeias produtivas globais. Segundo o pesquisador, guerras e tensões geopolíticas podem afetar diretamente as importações de insumos estratégicos, as exportações brasileiras, o crescimento da economia mundial e o equilíbrio fiscal dos países. Ao mesmo tempo, podem estimular processos de substituição de importações, diversificação de parceiros comerciais e inovação tecnológica.

                         

Ao examinar os efeitos da guerra entre Rússia e Ucrânia, Romero mostrou que houve forte redução do comércio bilateral entre Brasil e Ucrânia, tanto nas importações quanto nas exportações. Apesar disso, o impacto agregado sobre o comércio exterior brasileiro foi relativamente limitado, uma vez que o país conseguiu redirecionar parte significativa de suas vendas para outros mercados. O pesquisador destacou ainda que o crescimento das exportações brasileiras para o restante do mundo foi impulsionado principalmente por commodities como petróleo, minério de ferro, soja, açúcar, milho, café e carnes.

Em relação ao conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, Romero observou mudanças recentes na composição do comércio exterior brasileiro, com redução das exportações totais e aumento das importações de produtos minerais e derivados, refletindo a influência das oscilações nos mercados internacionais de energia. Segundo sua avaliação, os principais riscos para a economia brasileira continuam concentrados nos preços dos combustíveis, na inflação e nos custos fiscais associados às medidas de mitigação adotadas pelo governo.

Na sequência, Débora Freire Cardoso apresentou uma análise dos canais pelos quais os conflitos no Oriente Médio afetam as economias emergentes e o Brasil. A secretária destacou três mecanismos centrais de transmissão: o canal energético, relacionado ao petróleo e ao gás natural; o canal comercial, associado ao transporte marítimo e às cadeias globais de valor; e o canal financeiro, marcado pela maior aversão ao risco e pela valorização do dólar.

A economista ressaltou que o Brasil possui alguns fatores importantes de resiliência diante desses choques externos, como sua condição de exportador líquido de petróleo bruto, a elevada participação de fontes renováveis em sua matriz energética, a diversificação da pauta exportadora e o volume expressivo de reservas internacionais. Por outro lado, chamou atenção para vulnerabilidades relacionadas à dependência de derivados importados de petróleo e fertilizantes.

Outro ponto central da exposição foi o impacto dos conflitos sobre a inflação brasileira. Segundo Débora Freire, a alta dos preços internacionais do petróleo tem pressionado combustíveis, fertilizantes e custos logísticos, afetando as projeções inflacionárias para os próximos anos. A secretária apresentou diferentes cenários para a evolução do conflito e demonstrou que um prolongamento das tensões pode elevar a inflação, alterar expectativas econômicas e aumentar a necessidade de intervenções governamentais.

                                             

Também foram apresentadas medidas adotadas pelo governo federal para reduzir os efeitos econômicos do choque internacional, incluindo subsídios temporários aos combustíveis, desonerações tributárias e linhas de financiamento voltadas à exportação e a setores estratégicos da economia. Segundo a exposição, o objetivo dessas ações é preservar a estabilidade macroeconômica, proteger a atividade produtiva e minimizar impactos sobre o emprego e a renda.

A mesa evidenciou como os acontecimentos geopolíticos transcendem as fronteiras nacionais e afetam diretamente a economia brasileira. As apresentações reforçaram a importância da análise econômica para compreender os efeitos dos conflitos internacionais sobre comércio, inflação, crescimento econômico e formulação de políticas públicas, temas que permanecem centrais para o desenvolvimento do país em um cenário global cada vez mais instável.

 


Sustentabilidade, mudanças climáticas e planejamento urbano marcam segunda mesa do segundo dia

A segunda mesa do dia 30 de maio, intitulada “Sustentabilidade e Política Urbana: o papel do economista nas cidades”, reuniu a conselheira do Cofecon, Janine da Silva Alves Bello, e o professor Harley Silva, da Universidade Federal do Pará (UFPA), para discutir os desafios impostos pelas mudanças climáticas e a contribuição da Economia para a construção de cidades mais sustentáveis, resilientes e socialmente inclusivas.

Abrindo os trabalhos, Janine Alves abordou os impactos econômicos dos eventos climáticos extremos, destacando que as mudanças climáticas deixaram de ser uma preocupação exclusivamente ambiental para se tornarem uma questão central da agenda econômica. A palestrante enfatizou a necessidade de ampliar a produção e a circulação de informações qualificadas sobre o tema, defendendo o combate ao negacionismo climático e a formação de uma cidadania capaz de compreender os efeitos econômicos, sociais e territoriais das transformações ambientais em curso.

Ao longo da exposição, foi ressaltado que secas, enchentes, ondas de calor e outros eventos extremos geram custos crescentes para governos, empresas e populações, afetando infraestrutura, abastecimento, saúde pública e atividades produtivas. Nesse contexto, Janine destacou a importância da atuação dos economistas na definição de prioridades e na alocação eficiente de recursos públicos e privados voltados à adaptação climática e à mitigação de riscos ambientais. Como sintetizou a palestrante, é necessário contar com economistas capazes de apoiar as melhores escolhas coletivas diante dos desafios impostos pela crise climática.

Na sequência, Harley Silva apresentou uma reflexão sobre a relação entre sustentabilidade, economia urbana e reprodução social. Segundo o pesquisador, as crises climáticas representam um dos principais desafios econômicos do século XXI e recolocam no centro do debate temas historicamente associados à vida urbana, como abastecimento, acesso à água, saneamento, mobilidade, uso do solo, gestão de resíduos e segurança alimentar.

O professor argumentou que compreender a cidade exige ir além das análises tradicionais centradas exclusivamente no crescimento econômico ou nos mercados. Para ele, a Economia Urbana precisa considerar as condições materiais que permitem a reprodução da vida coletiva, reconhecendo que questões como saneamento, infraestrutura, abastecimento e qualidade ambiental não são apenas fatores auxiliares do desenvolvimento, mas parte constitutiva dele.

Ao discutir o uso do solo urbano, Harley destacou que a ocupação das cidades influencia diretamente aspectos como drenagem, temperatura, biodiversidade, captura de carbono e exposição a riscos climáticos. Também chamou atenção para a crescente relevância da segurança alimentar e da organização dos sistemas de abastecimento, especialmente diante da maior frequência de eventos extremos e das vulnerabilidades das cadeias de suprimentos.

Outro ponto central da apresentação foi a defesa de uma visão ampliada da economia, capaz de reconhecer a diversidade de instituições que organizam a vida urbana. Além dos mercados, o pesquisador ressaltou o papel do Estado, das organizações coletivas, das associações comunitárias e das redes de cooperação na construção de soluções para problemas urbanos complexos.

Ao final, os palestrantes convergiram na avaliação de que a sustentabilidade urbana se tornou uma questão estratégica para o desenvolvimento econômico. A mesa reforçou a ideia de que os economistas têm papel fundamental na formulação de políticas públicas voltadas à adaptação climática, ao planejamento das cidades e à promoção de formas de desenvolvimento que conciliem crescimento econômico, justiça social e preservação ambiental.

Essa discussão dialogou diretamente com um dos temas centrais do seminário: a necessidade de formar profissionais capazes de compreender os desafios contemporâneos a partir de uma perspectiva interdisciplinar, conectando economia, território, sociedade e meio ambiente.


Política, trabalho e tecnologia: quem decide o futuro do desenvolvimento brasileiro?

A terceira mesa do segundo dia do 6º Seminário de Estudantes de Economia promoveu uma reflexão sobre as relações entre política e economia a partir do tema “Quem decide a economia: o papel da política no futuro do Brasil e de Minas”. O debate reuniu a jornalista Bertha Maakaroun, do Estado de Minas e da Rádio Itatiaia, e o sociólogo João Batista dos Mares Guia.

A atividade discutiu como as decisões econômicas são resultado de processos políticos, institucionais e sociais, envolvendo governos, parlamentos, empresas, movimentos sociais e diferentes grupos de interesse. Os palestrantes destacaram que questões como desenvolvimento econômico, investimentos públicos, políticas sociais, infraestrutura, educação e sustentabilidade dependem de escolhas políticas que refletem disputas de projetos para o país e para os estados.

Ao abordar o cenário brasileiro e mineiro, a mesa analisou os desafios da democracia contemporânea, o papel da informação na formação da opinião pública e a importância da participação cidadã nos processos decisórios. Também foram debatidos os impactos das transformações políticas recentes sobre a capacidade do Estado de planejar e implementar estratégias de desenvolvimento de longo prazo.

O encontro contribuiu para ampliar a compreensão dos estudantes sobre a interação entre economia e política, ressaltando que os fenômenos econômicos não podem ser analisados isoladamente das instituições, das relações de poder e das escolhas coletivas que moldam o futuro da sociedade.


Transformações do Trabalho e os desafios da economia digital encerram o segundo dia do Seminário

A quarta mesa do segundo dia do 6º Seminário de Estudantes de Economia discutiu as profundas mudanças em curso no mundo do trabalho a partir do tema “Transformações do Trabalho: entre a Escala 6×1 e a Digitalização das Profissões”. O debate reuniu Lucia dos Santos Garcia, conselheira do Cofecon e técnica do DIEESE, e João Gabriel Pio, economista da FIEMG, que apresentaram diferentes perspectivas sobre jornada de trabalho, produtividade, digitalização e os desafios das novas formas de ocupação.

Em sua apresentação, Lucia Garcia analisou as transformações provocadas pela digitalização da economia e pela expansão das plataformas digitais. A palestrante destacou que as novas tecnologias vêm alterando não apenas os processos produtivos, mas também as relações de trabalho, os mecanismos de contratação e as formas de gestão da força de trabalho. Segundo a exposição, a crescente utilização de algoritmos, plataformas digitais e sistemas automatizados tem ampliado modalidades de trabalho marcadas por maior flexibilidade, mas também por instabilidade ocupacional e fragilização das proteções trabalhistas tradicionais.

A economista também abordou os impactos da reforma trabalhista brasileira e o crescimento de formas de contratação como terceirização, trabalho intermitente, teletrabalho e atividades mediadas por plataformas digitais. Foram discutidos os desafios relacionados à jornada de trabalho, à remuneração, à saúde dos trabalhadores e à necessidade de construir novas formas de regulação capazes de responder às mudanças tecnológicas e organizacionais do século XXI.

Um dos pontos centrais da apresentação foi o debate sobre a escala 6×1 e a distribuição do tempo de trabalho. A palestrante ressaltou que jornadas extensas afetam a qualidade de vida, a saúde, o acesso à educação e o convívio social, defendendo que a discussão sobre o futuro do trabalho deve considerar não apenas ganhos de eficiência econômica, mas também as condições de reprodução da vida dos trabalhadores.

Na sequência, João Gabriel Pio apresentou uma análise econômica da proposta de redução da jornada de trabalho no Brasil, destacando experiências internacionais e indicadores de produtividade. Segundo os dados apresentados, o Brasil possui carga horária semanal semelhante ou inferior à média de diversos países de renda equivalente, mas enfrenta um desafio histórico relacionado à baixa produtividade do trabalho.

O economista argumentou que países que reduziram suas jornadas de trabalho geralmente realizaram essas mudanças em contextos de renda mais elevada e produtividade significativamente superior à brasileira. Com base em estudos internacionais, observou que não há consenso sobre ganhos automáticos de emprego, renda ou produtividade decorrentes da simples redução da jornada, ressaltando a importância de considerar as especificidades da economia brasileira.

João Pio destacou ainda que o crescimento econômico sustentável depende de investimentos em educação, infraestrutura, inovação tecnológica e melhoria do ambiente de negócios. Para ele, o principal desafio do país continua sendo elevar sua produtividade, condição fundamental para ampliar renda, competitividade e bem-estar social.

A mesa evidenciou diferentes interpretações sobre as transformações do trabalho contemporâneo, mas convergiu em um ponto fundamental: as mudanças tecnológicas, organizacionais e demográficas exigem novos instrumentos de análise e novas formas de regulação. O debate reforçou a importância de compreender simultaneamente produtividade, inovação, direitos trabalhistas e qualidade de vida, temas centrais para o futuro do trabalho e para a atuação dos economistas nas próximas décadas.


Emergência da China, Indústria 4.0 e os desafios da reindustrialização encerram o Seminário

A mesa de encerramento do 6º Seminário de Estudantes de Economia, realizada dia 31 de maio na sede do Corecon-MG, contou com a participação do professor José Eduardo Roselino, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), que apresentou a conferência “Emergência Chinesa e Transformações do Capitalismo Contemporâneo: Reflexões sobre o Brasil”. A exposição abordou a ascensão da China como principal fenômeno econômico do século XXI, as disputas tecnológicas globais e os desafios da política industrial brasileira diante das transformações do capitalismo contemporâneo.

Segundo Roselino, a emergência chinesa representa o acontecimento mais importante da economia mundial nas últimas décadas. O palestrante destacou que o desenvolvimento da China não pode ser compreendido apenas pelos mecanismos de mercado, mas também pelo papel desempenhado pelo Estado na coordenação de investimentos, no planejamento de longo prazo e na formulação de políticas industriais voltadas à transformação estrutural da economia.

Ao analisar a trajetória chinesa, o professor ressaltou que o sucesso do país esteve associado à capacidade de adaptar continuamente suas políticas industriais aos diferentes estágios de desenvolvimento econômico. Em vez de apenas acompanhar a fronteira tecnológica internacional, a China passou a adotar estratégias voltadas à liderança em setores estratégicos, investindo fortemente em inovação, ciência e tecnologia.

A apresentação também discutiu o acirramento das disputas geopolíticas e tecnológicas entre China e Estados Unidos. Roselino argumentou que a chamada guerra tecnológica expressa uma reação das economias centrais ao avanço chinês em áreas consideradas estratégicas, como telecomunicações, inteligência artificial, plataformas digitais, semicondutores e tecnologias associadas à Indústria 4.0. Empresas como Huawei, TikTok e WeChat foram citadas como exemplos de organizações que se tornaram alvos das tensões entre as duas maiores economias do mundo.

Outro tema central da exposição foi a Indústria 4.0. O professor destacou que a nova revolução técnico-produtiva não resulta apenas do avanço tecnológico espontâneo, mas de estratégias nacionais deliberadas voltadas à ampliação da competitividade industrial e da autonomia tecnológica. Nesse contexto, políticas industriais passaram a ocupar novamente posição central nas agendas econômicas de países como China, Estados Unidos, Alemanha, Japão e Coreia do Sul.

Ao trazer a discussão para o caso brasileiro, Roselino argumentou que o país enfrenta desafios particulares decorrentes da desindustrialização, da fragmentação das cadeias produtivas e da crescente internacionalização da produção. Segundo o palestrante, a reconstrução de uma estratégia de desenvolvimento exige novas formas de política industrial capazes de inserir o Brasil de maneira mais qualificada nas cadeias globais de valor, fortalecendo a capacidade produtiva e tecnológica nacional.

Nas considerações finais, o professor destacou que a experiência chinesa reafirma uma lição clássica do desenvolvimento econômico: a superação do subdesenvolvimento não ocorre de forma espontânea, mas depende de estratégias de longo prazo voltadas à transformação da estrutura produtiva. Para ele, o principal desafio brasileiro consiste em construir um projeto de reindustrialização compatível com as novas características da economia mundial e com as exigências tecnológicas da Indústria 4.0.

Encerrando o seminário, a conferência reforçou a importância de compreender as profundas mudanças em curso na economia global e o papel estratégico das políticas industriais, da inovação e do planejamento econômico para o futuro do desenvolvimento brasileiro.

A coberrtura fotográfica está sendo levada para o Flickr, observe.

 

Economia em Transformação: desafios para o Brasil em um mundo em mudança

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