Presidente do IBGE, Márcio Pochmann, participa da celebração dos 75 anos da regulamentação da profissão de economista e propõe reflexão sobre a soberania dos dados na era digital
A celebração dos 75 anos da regulamentação da profissão de economista, realizada pelo Conselho Regional de Economia de Minas Gerais (Corecon-MG), em 13 de agosto, reuniu representantes de instituições ligadas à formação profissional, à produção de conhecimento, à representação da categoria e à produção de informações sobre a realidade brasileira.
Na mesa de honra da cerimônia estiveram Márcio Pochmann, presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE); Carolina Rocha Batista, presidente do Corecon-MG; Breno Leandro, presidente do Sindicato dos Economistas de Minas Gerais (Sindecon-MG); e Demétrius David, reitor da Universidade Federal de Viçosa (UFV).
A composição da mesa reuniu diferentes dimensões relacionadas à trajetória da profissão: a produção de informações e estatísticas, a representação institucional dos economistas, a organização sindical e a formação acadêmica. A presença dos dirigentes também estabeleceu uma relação direta entre a celebração dos 75 anos da profissão e os marcos históricos das instituições representadas.
Em sua fala, Pochmann estabeleceu uma relação entre a trajetória do IBGE, a formação do sistema estatístico brasileiro e a própria história da Economia no país. Partindo do período de criação do Instituto e dos primeiros censos, recuperou momentos em que a produção de estatísticas passou a confrontar visões consolidadas sobre a sociedade brasileira e a subsidiar decisões econômicas e políticas.
O presidente do IBGE também relacionou essa trajetória aos 90 anos do Instituto, comemorados em 2026. O IBGE foi instalado em 29 de maio de 1936, inicialmente como Instituto Nacional de Estatística, e passou a adotar a denominação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística em 1938.
A retrospectiva histórica serviu como ponto de partida para uma questão contemporânea: quem produz, armazena, controla e utiliza os dados sobre a sociedade brasileira?
A partir daí, Pochmann deslocou o debate para os impactos da transformação tecnológica e da inteligência artificial. Se o Estado leva anos para realizar um censo, as grandes plataformas digitais acumulam diariamente informações sobre comportamentos, deslocamentos, preferências, relações sociais e hábitos de consumo.
É nesse ponto que sua fala assume um caráter de alerta. Para Pochmann, a questão dos dados deixou de ser apenas técnica ou estatística e passou a envolver soberania nacional. O desafio, portanto, não é somente produzir informações sobre o Brasil, mas garantir que o país tenha capacidade de produzir, armazenar, proteger e utilizar estrategicamente os dados que dizem respeito à sua própria sociedade.
Essa preocupação também aparece em manifestações recentes do presidente do IBGE. Em julho de 2026, ao participar de uma sessão solene na Câmara dos Deputados pelos 90 anos do Instituto, Pochmann afirmou que o controle sobre as próprias informações constitui uma dimensão central da soberania contemporânea.
Ao final, o presidente do IBGE propôs uma aproximação entre IBGE, universidades, Conselhos profissionais, economistas e sindicatos em torno dessa questão, defendendo a construção de um movimento em favor da soberania dos dados na era digital.
A seguir, a íntegra da fala de Márcio Pochmann.
Íntegra da fala de Márcio Pochmann
Gostaria de saudar a todos com um abraço fraterno e solidário, em nome dos mais de 11 mil servidores do IBGE, distribuídos por mais de 560 agências pelo Brasil e pertencentes a 27 superintendências. Quero também parabenizar a categoria dos economistas. Agradeço muito o convite que nos foi feito.
Parabéns à Carolina que está à frente do Conselho Regional, que, como já foi bem dito, tem uma trajetória de liderança na categoria aqui no Estado e no Brasil. Ao Breno, nosso representante do sindicato aqui do Estado, cumprimento nosso magnífico reitor.
Penso que esse encontro que estamos tendo aqui. Essas falas, que me parecem somar quase 300 anos, porque temos 100 anos da universidade, o IBGE completou 90 anos agora, no dia 29 de maio deste ano, mais 75 anos da profissão. Não sei quantos anos tem o sindicato. Sessenta? Quantos? Sessenta e sete? Então, quase 300 anos.
É um reencontro de instituições que, de certa maneira, colocam o desafio que esteve presente ali no início da década de 1950, quando, apenas sete meses depois do início do segundo mandato do presidente Getúlio Vargas, ele protagonizou essa lei que estabelece a profissão dos economistas.
Naquele momento, o IBGE tinha menos de 20 anos de existência e o país enfrentava um enorme desafio: em primeiro lugar, conhecer-se na sua dimensão territorial. São marcas que vêm justamente da Revolução de 1930, quando se estabelece o desafio de nosso país de transitar de uma sociedade muito primitiva para uma sociedade complexa, moderna, que já ficou para trás, mas, enfim, a sociedade urbana e industrial.
Basta dizer que o desafio era intenso, porque nós estávamos falando, na década de 1920, de uma sociedade cuja expectativa média de vida não superava 35 anos de idade. Imaginemos voltar a 100 anos atrás. Possivelmente, uma parte sensível dos estão participando presencialmente talvez não estivesse aqui.
Uma sociedade composta de analfabetos, uma sociedade, de certa forma, muito distante daquilo em que o Brasil se transformaria praticamente meio século depois.
E isso foi feito com um projeto nacional que se constitui a partir da Revolução de 1930 e que, em 1936, no Palácio do Catete, o presidente Getúlio Vargas declarou uma frase, para nós, do IBGE, muito importante.
Ele dizia que não apenas estava cedendo o Palácio do Catete para começar as atividades do IBGE — naquela época, era o Instituto Nacional de Estatística; o IBGE só se transforma nesse nome conhecido em 1938, já no Estado Novo —, mas também estava cedendo uma sala contígua ao Palácio do Catete, não sei se vocês conhecem; vale a pena conhecer, é uma coisa muito importante.
Enfim, estava cedendo também o ministro das Relações Exteriores, Macedo Soares, para ser o presidente desse Instituto e, posteriormente, do IBGE.
Ele é, inclusive, o presidente mais longevo da instituição. São 28 presidentes ao longo de 90 anos, e o primeiro presidente ficou de 1936 a 1951. Esse é, basicamente, o momento de estruturação do sistema estatístico brasileiro tal como nós o conhecemos hoje.
O sistema estatístico brasileiro tem 155 anos. Ele começa em 1871, em plena monarquia, quando Rio Branco estabelece a criação da primeira instituição de produção de estatística no Brasil, que é a Diretoria Geral de Estatística. Ela viabiliza, em 1872, o primeiro censo demográfico.
Realizar um censo demográfico no Brasil, naquele momento, contou, na verdade, com o apoio muito grande dos padres, dos delegados de polícia, dos juízes de paz, porque não havia, na verdade, uma instituição formada por servidores para fazer esse levantamento.
E o levantamento, que estimou 10 milhões e 500 mil habitantes, colocou essa realidade diante de uma visão que havia na elite daquela época: a de que o Brasil era, na verdade, um país europeu, constituído por brancos, alfabetizados e cujo futuro estava garantido.
Era um país recente, tinha algumas décadas de independência, mas seu caminho era um caminho europeu. Em breve, seríamos uma França, uma Inglaterra.
Mas o censo vai mostrar outra coisa sobre o Brasil. Dois terços da população não eram brancos, 90% eram analfabetos e 15% da população era escrava. Então, isso foi um choque do ponto de vista do que era a pretensão da elite daquela época.
Desde então, nós temos uma tensão, muitas vezes, entre a produção da estatística, da realidade e, muitas vezes, das elites existentes ou até mesmo dos governantes, que se deparam, muitas vezes, com uma realidade distinta daquela que a retórica ou a ideologia lhes fundamenta.
Mas essa construção, que vai do último quarto, do último terço do século XIX, é importante porque vai produzir informações necessárias para uma sociedade que se identificava com o tempo lento. Diziam alguns autores, Guimarães Rosa, entre outros, que a sociedade agrária é uma sociedade do tempo lento. As coisas acontecem muito lentamente.
Então, a produção de estatística: o primeiro censo realizado em 1872, quatro anos depois é revelado o dado, em 1876, com uma crônica fantástica de Machado de Assis, que coloca a importância do número, do dado, e que não é somente o dado, mas é preciso olhar quem está por trás do dado.
Enfim, o que eu quero chamar a atenção é que a produção da estatística, até o final dos anos 1920, é uma produção que leva tempo: de dez em dez anos, vai sendo produzida. Nem sempre se conseguiu fazer todos os anos.
Mas, ali, a Revolução de 1930, que, na verdade, interdita essa Diretoria de Estatística criada lá em 1871, repensa o que criar. E aí surge o Instituto Nacional de Estatística, depois o IBGE, que é a primeira experiência do mundo em reunir estatística e geografia.
Nos dias de hoje, só há três países que juntam essas duas áreas: o México, a partir de 1983, e, em 2005, a Libéria. São os únicos países que juntam estatística e geografia.
Obviamente, nós sabemos o quanto isso foi fundamental para conhecer, por meio das missões e expedições, a demarcação do território nacional, a construção dos biomas, enfim, os mapas de fronteira.
Tudo isso vai sendo produzido oficialmente por uma instituição que começa, na verdade, a dar os contornos de um tempo moderno, de um tempo em que vai exigir mais informações, mais rápidas, porque o modo de vida na cidade é diferente do modo de vida no campo.
E, nos anos 1950, o próprio IBGE vai viver, de 1951, quando sai lá o José Carlos de Macedo Soares, até 1964, um embate muito importante, porque, naquele momento, se colocam questões sobre por que, na verdade, parte da estatística oficial do Brasil é produzida por uma instituição privada.
Como é o caso, até 1985, da produção das contas nacionais do PIB, o Produto Interno Bruto, que era produzida pela Fundação Getúlio Vargas, uma instituição privada. Como uma instituição privada produz dado público oficial?
Havia ali uma ausência do IBGE nesse sentido, porque significou repensar a sua fundamentação. Isso foi feito a partir dos anos 1950. Por que fazer censo demográfico de dez em dez anos se há uma tecnologia nova chamada pesquisa amostral? Não precisa fazer um universo; você pode fazer uma amostra representativa, e ela é mais barata, é mais ágil. E, numa sociedade urbana, cujo tempo agora está colocado pelo custo da vida, são necessárias pesquisas mais rápidas. Isso exigiu um repensar na instituição.
A mesma coisa em relação à questão do índice de preços. A inflação do Brasil, até 1985, era feita por uma instituição privada, por exemplo. E vários questionamentos sobre problemas de manipulação de dados, como foi em 1973. A base da ascensão do movimento sindical do final dos anos 1970 se deu em função da manipulação da inflação em 1973, por exemplo.
A questão dos microdados: quando você introduz os microdados, até 1950 o censo demográfico era um questionário único, universal, para todo mundo. A partir de 1960, introduz-se um questionário amostral, com 10% da população e, portanto, são gerados os microdados. Sua primeira utilização ocorreu, inclusive, em 1972, por um estadunidense, Alberto Fischloff. Foi a primeira pessoa a usar os microdados do censo. Uma coisa meio estranha, o sigilo, mas, enfim.
E, em 1973, por orientação do então ministro Delfim Netto, teve acesso aos dados, aos microdados do censo de 1970, junto com os dados da Lei dos Dois Terços, que hoje é a RAIS, Relação Anual de Informações Sociais, e mais os dados da Receita Federal, para poder produzir informações que permitissem ao governo da época dizer que a desigualdade de renda, quando se compararam os dados da renda de 1970 com os de 1960 — porque em 1960 é o primeiro censo que introduz a variável renda, que antes não tinha —, havia aumentado o índice de Gini.
Então, o modelo econômico militar produz desigualdade. Naquele momento, utilizaram-se os microdados para dizer que a desigualdade era natural por conta do capital humano. Enfim, há uma outra discussão da controvérsia dos anos 1970, à qual também vou voltar mais uma vez para dizer que ali nós estávamos vivendo um outro momento.
Então, o encontro, nos anos 1950, dos economistas com a preocupação que o IBGE vai ter, com o desafio de produção de informações mais rápidas, não somente o censo vai ganhar, na verdade, a grande orientação. Somente nos anos 1960, com o acordo que o Brasil vai fazer com a USAID, com a Aliança para o Progresso dos Estados Unidos, é que se traz a metodologia de pesquisas amostrais.
Quando a PNAD, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, surge, em 1967. Em 1969, o IBGE começa a levantar os primeiros índices de preços, chamado SINATA, da construção civil. Tudo isso para dizer o seguinte: nós estamos vivendo uma outra época, que não tem nada a ver com os anos 1950.
Nós estamos vivendo uma sociedade de serviços, uma sociedade hiperconectada na era digital. E a produção que nós estamos fazendo hoje está ficando para quase história. E nós estamos concluindo agora, dia 31 de agosto, a divulgação dos chamados microdados do Censo 2022. Ou seja, nós estamos em 2026, quatro anos depois.
E por que estão demorando tanto tempo?
Porque nós vimos divulgar, já no ano passado, os microdados, só que hoje, com o uso da inteligência artificial, é possível você tomar os microdados e reidentificar as pessoas. Você combina variáveis e chega a identificar as pessoas. E isso nos coloca em uma situação dramática, porque nós estamos sob a lei do sigilo.
E nós temos a Lei Geral de Proteção de Dados. Então, precisamos fazer uma série de testes e reorganizar a forma de uso dos microdados. Mas o que eu quero dizer, em última análise, é o seguinte: o IBGE, ou qualquer outra instituição de estatística, leva dez anos para fazer o censo. E, nas casas dos brasileiros, nós estamos falando de 90 milhões de domicílios.
Não é brincadeira.
Estamos agora nos preparando para fazer o Censo Agropecuário, Florestal e Aquícola. São 5 milhões de estabelecimentos. E não é no Brasil do asfalto. É um Brasil profundo. São 37 mil recenseadores para ir aos domicílios. Para fazer o censo foram 180 mil recenseadores. Então, são operações estatísticas enormes, custosas. Mas hoje nós estamos lidando com uma outra situação, que são as big techs. Que fazem o censo todo dia.
No final do dia, eles têm o censo da população.
Como assim?
Não.
Porque todos aqui, para entrar na rede social, seja qual for, precisam autorizar a política de privacidade da empresa. E lá a gente até assina, porque, se não assinar, você não entra. E a gente nem lê. Até é bom, porque, se a gente lê, vai ficar claro que tudo o que nós postarmos — as mensagens, os vídeos, os pagamentos, tudo o que nós postarmos — está sendo armazenado por essa empresa, ou essas empresas, e lá elas dizem que os dados não nos pertencem. As nossas fotografias ou filmes.
Então, ao final do dia, eles armazenam essas informações, sistematizam e sabem as nossas opções, os nossos custos, os nossos deslocamentos. Eles têm um censo diário.
Então, nós estamos numa situação dramática, que é a seguinte: o Brasil hoje não tem soberania dos seus dados. Reitor, eu vou dizer o seguinte: as universidades são uma vergonha. Porque nós temos hoje 78% dos dados produzidos no Brasil que ficam depositados ou operacionalizados por empresas estrangeiras. Nas universidades, é 100%.
Eu venho de uma universidade que, até o final dos anos 1990, tinha o seu departamento de pessoal — melhor dizendo, de processamento de dados. Tudo era feito dentro da universidade. Nós tínhamos a internet própria da universidade. A videoconferência era da universidade. E as universidades jogaram fora isso.
Tudo hoje vinculado ao Zoom, ao Meet, eu não sei o que mais. Ou seja, os chats que nós temos hoje, que a gente faz qualquer pergunta, têm informação.
Então, de onde vêm essas informações? Fomos nós que doamos gratuitamente.
Então, essa é uma coisa gravíssima porque, hoje, essas chamadas Big Techs, e a maior parte delas tem a sede nos Estados Unidos — nada contra os Estados Unidos, mas vocês sabem —, os Estados Unidos têm duas leis que dizem o seguinte: todas as informações depositadas nas empresas com sede nos Estados Unidos são abertas para o Departamento de Estado.
Foi assim que a Petrobras, por exemplo, teve vazamento das suas informações. Como teve vazamento das suas informações? Levou a Petrobras a ter que criar sua nuvem própria, sua inteligência artificial própria.
Hoje é tudo, nossos bancos de dados, todos praticamente depositados em empresas estrangeiras. Então, nós temos uma realidade, por exemplo, em que empresas estrangeiras têm mais informação que o IBGE. Sabem mais do Brasil que o presidente da República, que o governador, que o prefeito.
Essa é uma questão fundamental que, eu diria assim, exigiria do nosso encontro, aqui, do IBGE com a Universidade, com o Conselho, com os economistas, com o sindicato, um movimento em defesa da soberania nacional.
Se há mais de 200 anos as gerações de brasileiros se juntaram para defender a soberania política, ou seja, não é mais nesse território que são tomadas decisões que vêm de Portugal, foi isso que permitiu, a partir de 1962, o Brasil, inclusive, decidir pela continuidade da escravidão.
Sessenta e seis anos de escravidão que se mantiveram foram decisões dos brasileiros naquela época. Nos anos de 1920 e 1930, uma outra grande mobilização de brasileiros em defesa do quê? Da soberania econômica. Não há soberania política se não houver decisões econômicas dentro do país. E aí, um projeto nacional-desenvolvimentista.
Hoje, nós precisamos tomar esse movimento de soberania dos nossos dados. A soberania da era digital exige, na verdade, uma inteligência que o Brasil tem. As universidades produzem gente qualificada, nuvem, está certo? Toda a estrutura digital.
Esse é o passo.
É um apelo que aproveito a oportunidade de estarmos aqui, em questões tão importantes e com um público tão adequado, para levantar esse ponto, que poderia ser uma grande campanha em defesa da soberania nacional.
Obrigado.

