A sede do Conselho Regional de Economia de São Paulo (Corecon-SP) foi palco, nos dias 28 e 29 de agosto, do 8º Encontro de Economia do Sudeste, que reuniu economistas, acadêmicos, representantes do setor privado e gestores públicos em dois dias de intensas reflexões. Organizado em parceria com os Corecons de Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo, o evento foi transmitido pela TV Economista e somou 14 palestrantes renomados e 16 horas de conteúdo.
O encontro teve como tema central “Desafios Econômicos do Brasil e Propostas para o Desenvolvimento Nacional” e buscou reposicionar a economia brasileira no debate público, discutindo desde a formulação de um projeto nacional de desenvolvimento até questões cruciais como produtividade, geopolítica, previdência, inovação tecnológica e transição ecológica.
Abertura: unidade institucional e a necessidade de um novo projeto
A abertura contou com a presença dos presidentes dos Corecons do Sudeste — Odilon Guedes (SP), Carolina Rocha Batista (MG), Érika Leal (ES) Antônio dos Santos Magalhães (RJ) — além de João Manoel Gonçalves Barbosa, representando a presidente do Cofecon, Tania Cristina Teixeira.
Na fala inicial, os dirigentes reforçaram o papel dos Conselhos Regionais como espaços de defesa da profissão de economista, mas também de formulação e difusão de ideias para o desenvolvimento nacional.
A primeira conferência do encontro, intitulada “Um novo projeto de desenvolvimento para o Brasil”, foi proferida pelo economista e escritor Paulo Nogueira Batista Jr.. A mediação ficou a cargo do presidente do Corecon-SP, Odilon Guedes, que destacou o momento histórico da discussão.
Batista Jr. ressaltou que, embora o Brasil seja um dos gigantes globais em termos econômicos, demográficos e territoriais, ainda não construiu um projeto próprio de desenvolvimento, permanecendo subordinado ao pensamento externo.
“O Brasil tem potencial para construir um projeto robusto, popular, inclusivo e independente. Para isso, é preciso descolonizar mentalmente nossas elites, ainda muito subordinadas ao pensamento dos Estados Unidos e da Europa”, afirmou.
Guedes lembrou que, após o II Plano Nacional de Desenvolvimento, nos anos 1970, o país abandonou as grandes estratégias de planejamento de longo prazo e passou a se concentrar apenas no combate à inflação, perdendo a perspectiva de futuro.
Papel do Estado e da indústria
Na sequência, o painel “O papel do Estado, do setor privado e fontes de financiamento” reuniu Marília Marcato (BNDES) e Rafael Cervone (CIESP), sob a mediação do presidente do Corecon-SP, Odilon Guedes.
Marília apresentou a estratégia do plano Brasil Soberano, destacando o papel do BNDES como agente estruturante da reindustrialização nacional em um contexto de disputas geopolíticas crescentes. Para ela, o Banco é responsável por articular desenvolvimento produtivo, inovação e difusão tecnológica.
Já Cervone enfatizou que a indústria é responsável por 69% dos gastos em inovação e 67% dos investimentos em P&D no país. Defendeu a construção de um projeto estruturante que vá além de governos, com estabilidade e segurança para os setores produtivos.
“A palavra de ordem é cooperação. Cada um deve dar o melhor de si para construirmos um Brasil mais competitivo e sustentável”, destacou.
Geopolítica e integração regional
À tarde, o debate “O novo cenário geopolítico e o Brasil” reuniu Carolina Pavese (LSE) e Pedro Silva Barros (Ipea), sob a mediação da presidente do Corecon-MG, Carolina Rocha Batista.
Pavese apontou que 2025 tem sido considerado o ano da geopolítica, marcado por um superciclo de crises internacionais, e destacou os riscos e oportunidades para o Brasil nesse novo cenário global.
Barros defendeu que a integração bioceânica é estratégica para melhorar a competitividade brasileira, permitindo maior inserção da produção nacional em cadeias internacionais de valor.
Encerrando o primeiro dia, o presidente do IBGE, Márcio Pochmann, apresentou um painel sobre as mudanças demográficas em curso no país.
“O diagnóstico e o prognóstico da população brasileira mostram transformações profundas neste primeiro quarto do século XXI. É essencial compreender essas mudanças para projetar o Brasil de amanhã”, afirmou.
A mediação do painel ficou a cargo da presidente do Corecon-ES, Érika Leal.
Segundo dia: mercado de trabalho, renda e previdência
Profissão de economista e novos desafios
O segundo dia iniciou-se com o painel “Mercado de trabalho para economistas”, com Pedro Afonso Gomes (Cofecon) e Antonio Corrêa de Lacerda (BNDES). A sessão foi mediada pela presidente do Corecon-ES, Érika Leal.
Pedro Afonso destacou que a região Sudeste reúne 30 mil profissionais e 53% do PIB nacional, o que confere aos economistas grande responsabilidade na formulação de soluções.
Já Lacerda lembrou que a profissão de economista é ampla e plural, combinando teoria econômica, métodos quantitativos, história e análise crítica, o que a torna adequada às grandes transformações do mundo atual.
Emprego, produtividade e previdência
No painel seguinte, “Geração de emprego, produtividade e distribuição de renda”, participaram Aristides Monteiro Neto (Ipea), Clemente Ganz (consultor sindical) e Luigi Nese (CNS/SEPROSP). A moderação foi realizada pelo presidente do Corecon-RJ, Antônio dos Santos Magalhães.
Monteiro destacou que não apenas o Centro-Oeste, impulsionado pelo agronegócio, mas também o Nordeste, têm apresentado transformações significativas.
Ganz defendeu que o país precisa enfrentar quatro grandes transições — demográfica, ecológica, tecnológica e macropolítica — para gerar crescimento sustentável.
Já Nese apresentou uma proposta de nova base de financiamento da Previdência, substituindo a contribuição sobre salários por uma taxa sobre movimentações financeiras. O tema foi complementado por Fernando Garcia, que alertou para o déficit crescente no regime geral da Previdência.
Inovação, sustentabilidade e dignidade humana
Na parte da tarde, o painel “Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação Tecnológica no Contexto da Descarbonização” trouxe as falas de Aline Cardoso (ICLEI América do Sul) e Isabel Ferreira (Instituto AYA). O debate foi mediado pelo vice-presidente do Corecon-SP, Haroldo Silva.
Aline destacou a importância dos green jobs e da inclusão produtiva na transição para uma economia verde. Isabel lembrou que o Ministério da Fazenda já trabalha em um plano para enfrentar barreiras e aproveitar oportunidades da transformação ecológica.
O encerramento do encontro foi feito pelo professor Ladislau Dowbor, com a palestra sobre o artigo 3º da Constituição Federal. Ele relacionou economia e dignidade humana, defendendo que não há justificativa econômica para a existência de pobreza em um país com PIB de R$ 12 trilhões.
“Garantir o básico para todos é viável e necessário. Isso dinamiza a demanda, impulsiona a economia e fortalece o mercado. O problema da pobreza não é econômico, mas de organização política e social”, destacou Dowbor, que também criticou o sistema financeiro por travar o desenvolvimento.
A moderação ficou a cargo da presidente do Corecon-MG, Carolina Rocha Batista, que ressaltou o valor do encontro:
“O Encontro do Sudeste é um espaço fundamental para pensarmos, juntos, os rumos da economia brasileira. Reunir profissionais, estudantes e lideranças de diferentes setores fortalece nossa profissão e amplia nossa capacidade de contribuir com propostas consistentes para o desenvolvimento nacional”, afirmou.
Um espaço de convergência
Foram dois dias de debates que reuniram especialistas, lideranças e representantes da sociedade civil em torno dos grandes desafios da economia brasileira. O 8º Encontro de Economia do Sudeste reafirmou o papel estratégico dos Corecons como espaços de formulação, debate e articulação de propostas capazes de inspirar políticas públicas para um desenvolvimento soberano, inclusivo e sustentável.
E para quem não pôde acompanhar ao vivo, todo o conteúdo do encontro está disponível no canal @TVEconomista, no YouTube




