Economista francês revisita Belo Horizonte mais de 40 anos após sua primeira vinda ao Brasil e destaca o papel estratégico do Brasil na agenda climática global.
O Conselho Regional de Economia de Minas Gerais reafirma seu compromisso com a reflexão qualificada sobre os desafios contemporâneos da economia ao sediar a palestra “Na Era do Antropoceno: como defender e proteger os bens comuns”, no dia 29 de setembro, às 19 horas, no auditório do Corecon-MG.
O encontro contou com a presença do professor emérito Benjamin Coriat, referência internacional no estudo da economia dos bens comuns, das formas de governança coletiva e das alternativas ao modelo econômico baseado na exploração intensiva de recursos.
Para Coriat, voltar a Belo Horizonte tem um significado especial. Ele lembrou que sua primeira visita ao Brasil ocorreu justamente na capital mineira, em 1979, em um contexto marcado pelos debates sobre o mundo do trabalho e a reorganização sindical:
“A minha primeira vinda ao Brasil foi em 1979, aqui em Belo Horizonte. Para mim, é emocionante, porque são mais de 40 anos desde que se abriu essa oportunidade de retomar uma discussão que começou há 45 anos. Naquele período eu trabalhava com questões laborais e aprendi muito aqui. O debate foi muito forte e me marcou profundamente.”
Quatro décadas depois, ele destaca que os desafios permanecem, mas ganharam novas dimensões:
“Essas questões continuam importantes, mas surgem outras: crise climática, meio ambiente, mudanças do clima. E o Brasil, mais uma vez, está na frente.”
Coriat ressalta ainda o papel estratégico do país no cenário internacional, especialmente diante da realização da COP30 e da centralidade da Amazônia:
“A Amazônia é uma questão do Brasil, mas também uma questão global. O que vai acontecer aqui vai influenciar o que vai acontecer no mundo inteiro. O Brasil é um laboratório de reflexões e soluções, por causa do tamanho do país e da riqueza dos bens comuns e globais.”
A presença do professor fortalece a linha de atuação do Corecon-MG ao promover debates que conectam economia, sustentabilidade, democracia e interesse público.
Formulação e diálogo
Para o vice-presidente do Corecon-MG, Francisco Horácio, a vinda de Coriat reafirma a relevância do Conselho como espaço de formulação e diálogo:
“Receber o professor Benjamin Coriat é uma oportunidade singular para ampliar a compreensão dos economistas sobre os desafios que atravessam o mundo do trabalho, os territórios e as estruturas produtivas. O Corecon-MG tem buscado promover debates que conectem a economia à sustentabilidade, à ciência e ao interesse público, e esta palestra simboliza esse compromisso.”
A discussão sobre o Antropoceno — período marcado pelo impacto humano sobre a estabilidade climática e ecológica do planeta — coloca os economistas diante de questões estratégicas relacionadas à sustentabilidade, às políticas públicas e à justiça social. Os bens comuns, como água, biodiversidade, atmosfera, conhecimento e territórios compartilhados, demandam novas formas de regulação e participação social.
Fortalecimento
Ao promover esse debate, o Corecon-MG reforça seu papel público na construção de uma agenda econômica comprometida com o interesse coletivo, a preservação ambiental e a formulação de políticas inovadoras. A iniciativa também fortalece o diálogo entre profissionais da economia, academia, poder público e sociedade civil organizada.
O evento contou com a participação ativa do público, e o professor Coriat respondeu a perguntas e dialogou com os presentes, ampliando a troca de ideias e o aprofundamento do tema. A atividade integra a atuação permanente do Conselho na defesa de uma economia que considere os limites ambientais, a gestão democrática dos recursos e os direitos das futuras gerações.
Mais informações sobre a programação do Corecon-MG estarão disponíveis nos canais oficiais da instituição.
O que são bens comuns?
Os bens comuns são recursos essenciais à vida coletiva que não podem ser apropriados ou controlados de forma exclusiva por indivíduos, empresas ou governos. Eles existem para atender necessidades coletivas e garantir direitos fundamentais – hoje e no futuro. A água, o ar, as florestas, os oceanos, o clima e a biodiversidade são exemplos clássicos de bens comuns naturais. Mas também existem os bens comuns imateriais, como o conhecimento, os dados, a cultura e os softwares livres.
Segundo Benjamin Coriat, o interesse renovado pelos bens comuns está diretamente ligado ao Antropoceno — a era em que a ação humana altera profundamente os equilíbrios ecológicos do planeta. A degradação ambiental, o extrativismo e as mudanças climáticas recolocam no centro do debate a necessidade de proteger os bens que sustentam a vida coletiva.
A noção contemporânea de bem comum não depende de quem é o proprietário formal do recurso — pode ser público, privado ou comunitário —, mas de sua função social e ecológica. A proteção dos bens comuns envolve três princípios fundamentais:
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Acesso garantido à coletividade, com atenção às futuras gerações;
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Preservação do recurso, evitando sua destruição ou privatização;
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Governança compartilhada, baseada na participação ativa da sociedade.
Experiências como a luta pela água pública na Itália, os acordos climáticos internacionais e as comunidades de software livre mostram que os bens comuns podem ser defendidos por diferentes arranjos jurídicos e sociais. Em muitos casos, a governança deve ser policêntrica — envolvendo diversos atores em várias escalas — sobretudo quando se trata de bens globais como o clima e os oceanos.
Coriat destaca que não há proteção dos bens comuns sem o fortalecimento dos “comuns” — comunidades organizadas que atuam na gestão e defesa desses recursos. Isso vale para territórios tradicionais, iniciativas cidadãs urbanas ou redes digitais de colaboração.
Em síntese, os bens comuns representam uma alternativa concreta à lógica da mercantilização generalizada, oferecendo caminhos para enfrentar a crise ambiental, fortalecer a democracia e construir novas formas de viver e produzir no Antropoceno.
Conheça Benjamim Coriat

Benjamin Coriat é professor emérito de Economia na Universidade Sorbonne Paris-Nord e uma das referências internacionais mais influentes em sua área. Sua trajetória reúne pesquisas que marcaram diferentes campos do pensamento econômico. Nos debates sobre o mundo do trabalho, foi uma voz importante nas discussões sobre alternativas aos modelos taylorista, fordista e ohnoísta. Também se destacou nos estudos de economia industrial, especialmente em temas como inovação e competitividade.
Outro eixo relevante de sua produção científica aborda a propriedade intelectual e seus efeitos na privatização do conhecimento — tema que o levou a analisar, por exemplo, as disputas globais em torno do combate ao HIV.
Nos últimos quinze anos, Coriat voltou seu foco para os direitos de propriedade e os bens comuns. Nessa fase, vem aprofundando reflexões sobre o Antropoceno, a ideologia proprietária e as consequências econômicas, sociais e ambientais desse modelo. Sua obra combina rigor analítico com compromisso com a transformação social, e essa marca percorre todo o seu percurso profissional.
A relação de Coriat com o Brasil é antiga: ele mantém diálogo com pesquisadores brasileiros desde o fim dos anos 1970 e visita o país com frequência. Foi um dos fundadores da Teoria Francesa da Regulação, integra o coletivo Les Économistes Atterrés e hoje é editor da revista científica on-line enCommuns (encommuns.net), dedicada ao debate sobre os bens comuns.






